A dor no quadril ao deitar de lado costuma vir dos tendões dos glúteos médio e mínimo, na lateral do quadril — a tendinopatia glútea, principal causa da síndrome dolorosa do grande trocânter, antes chamada de bursite trocantérica. Deitar sobre esse ponto comprime o tendão, e deitar sobre o lado oposto, com a perna de cima caída para frente, também. O que mais ajuda é ajustar a posição de dormir, reduzir as cargas que comprimem o tendão e fortalecer os glúteos de forma progressiva, com orientação.
Muitas mulheres descrevem a mesma cena. São duas, três da manhã. Você acorda com uma dor funda na lateral do quadril. Vira para o outro lado — e logo o outro também começa a incomodar. Pela manhã, os primeiros passos são rígidos. Subir escada, cruzar as pernas no carro, ficar de pé muito tempo numa reunião: tudo isso lembra que o quadril está ali.
Não é "coisa da idade" para aceitar calada. É um quadro bem conhecido, com mecanismo razoavelmente claro e caminhos que costumam funcionar.
O que é a síndrome dolorosa do grande trocânter?
Na lateral da coxa existe uma saliência óssea, o trocânter maior. Nele se prendem os tendões do glúteo médio e do glúteo mínimo, os músculos que mantêm a pelve nivelada quando você está apoiada em um pé só — a cada passo.
"Síndrome dolorosa do grande trocânter" é o nome guarda-chuva para a dor nessa região. Durante muito tempo, ela foi chamada de bursite, porque ali existe uma bolsa (bursa) que reduz o atrito. Mas os exames de imagem mudaram essa visão. Em um estudo com 877 pacientes com dor no trocânter, avaliados por ultrassom, cerca de 80% não tinham bursite; metade tinha alteração nos tendões glúteos (Long e colaboradores, 2013). Hoje, a tendinopatia glútea é reconhecida como a principal fonte local dessa dor.
Isso muda o tratamento: tendão precisa de carga bem dosada, não só de repouso.
Por que a dor no quadril ao deitar de lado piora à noite?
Esses tendões não gostam de compressão, especialmente quando o quadril fica "fechado" para dentro (adução). E a noite é cheia dela:
- Deitada sobre o lado dolorido, o peso do corpo pressiona o tendão contra o osso.
- Deitada sobre o lado bom, a perna de cima cai para frente e para dentro. O tendão se estica sobre o trocânter e fica comprimido de novo.
- Horas na mesma posição somam pressão, e o tendão já irritado reclama.
Durante o dia, algumas posturas fazem o mesmo: ficar em pé apoiada em uma perna só com o quadril "pendurado" para o lado, cruzar as pernas sentada, sentar em cadeiras muito baixas.
Quem tem mais chance de ter esse problema?
É um quadro bem mais frequente em mulheres e na meia-idade. Um estudo com 3.026 adultos de 50 a 79 anos (Segal e colaboradores, 2007, no Archives of Physical Medicine and Rehabilitation) encontrou a síndrome em 15% das mulheres de um lado e em 8,5% dos dois lados, contra 6,6% e 1,9% nos homens. As mulheres tiveram cerca de três vezes mais chance de apresentar o quadro.
O mesmo estudo encontrou associação com:
- dor lombar;
- artrose no joelho, do mesmo lado ou do lado oposto;
- sensibilidade na banda iliotibial, a faixa da lateral da coxa.
Curiosamente, nesse estudo, o peso corporal não se associou à síndrome depois dos ajustes. Na prática clínica, também é comum ver a dor surgir depois de um aumento brusco de caminhada, escada, trilha ou treino, ou depois de um período parada, com glúteos mais fracos.
Tendinopatia glútea ou artrose do quadril: como diferenciar?
As duas existem, podem coexistir e se confundem com frequência. Algumas pistas:
| Característica | Tendinopatia glútea | Artrose do quadril |
|---|---|---|
| Onde dói | Lateral do quadril, às vezes descendo pela coxa | Virilha, às vezes nádega ou joelho |
| Deitar sobre o lado | Costuma doer bastante | Incomoda menos |
| Ao apertar a lateral do quadril | Ponto sensível bem localizado | Geralmente sem ponto sensível |
| Calçar meia ou sapato | Possível, mas não é típico | Rigidez e dificuldade frequentes |
| Rotação da perna | Geralmente preservada | Limitada e dolorosa |
| Ficar em um pé só | Costuma provocar a dor | Pode doer, mas por outro motivo |
| Quem confirma | Médico, pelo exame clínico; ultrassom ou ressonância quando há dúvida | Médico, pelo exame clínico; a imagem nem sempre é necessária |
Pelo NICE, a artrose pode ser diagnosticada clinicamente, sem imagem, em pessoas com 45 anos ou mais, dor ligada à atividade e rigidez matinal ausente ou de até 30 minutos. Se a sua dor articular tem outras características, vale ler é artrose ou é sobrecarga?.
Outras causas também podem doer "no quadril": dor que vem da lombar e irradia, problemas da articulação sacroilíaca e, mais raramente, fraturas por estresse. Por isso, dor que não se encaixa no padrão merece avaliação médica.
O que ajuda de verdade?
O estudo LEAP, publicado no BMJ em 2018 por Mellor e colaboradores, acompanhou 204 pessoas de 35 a 70 anos com tendinopatia glútea confirmada por ressonância. Comparou três caminhos: educação sobre cargas mais exercícios (14 sessões em oito semanas), uma infiltração de corticoide e "esperar para ver".
- Em oito semanas, educação mais exercício teve mais pacientes relatando sucesso (51 de 66) do que a infiltração (38 de 65) e do que esperar (20 de 68), e também menos dor.
- Em um ano, o grupo do exercício seguia relatando mais melhora global do que o da infiltração, embora a intensidade da dor tenha ficado semelhante entre os dois.
Na prática, isso se traduz em um passo a passo:
- Proteja o sono. Evite deitar sobre o lado dolorido. Ao deitar sobre o outro lado, use um travesseiro firme e alto entre os joelhos para manter a perna de cima alinhada. Um colchão muito firme pode ganhar uma camada mais macia por cima.
- Tire a compressão do dia. Não cruze as pernas, não fique em pé "pendurada" em um quadril, prefira cadeiras em que o quadril fique um pouco acima dos joelhos.
- Ajuste a carga, sem parar de se mexer. Reduza por algumas semanas o que mais provoca a dor — escadas longas, trilhas, ladeiras de BH — e mantenha caminhadas planas.
- Fortaleça com progressão. Exercícios isométricos no começo, depois fortalecimento em pé e em apoio de uma perna só, com orientação profissional.
- Cuidado com alongamentos cruzados. Puxar a perna por cima da outra comprime o tendão irritado.
- Olhe para o resto do corpo. A associação com dor lombar e artrose no joelho sugere que a forma de caminhar e de distribuir carga também importa.
O que costuma não ajudar?
- Repouso total por semanas. O tendão perde capacidade, e a dor volta com menos esforço.
- Apostar só na infiltração. Ela pode aliviar, mas, sem mudar as cargas e fortalecer, o alívio tende a ser temporário.
- Alongar "para soltar" a lateral da coxa. Em geral, aumenta a compressão.
- Apertar com força o ponto dolorido por conta própria. Pressão intensa e repetida sobre o tendão irritado, com bolinhas ou rolos, tende a aumentar a sensibilidade.
Onde a Clínica Fábio Pense entra nesse cuidado?
O tendão dói no quadril, mas o que o sobrecarrega muitas vezes está em outro lugar. Na avaliação funcional, o Fábio costuma observar, conforme a queixa de cada paciente:
- a mobilidade da lombar e da articulação sacroilíaca, que influenciam a forma como a pelve se apoia — o tema é aprofundado em disfunção sacroilíaca;
- o controle da pelve em apoio de um pé só;
- a pisada, com baropodometria quando faz sentido, já que o jeito de pisar muda a forma como a carga sobe pela perna até o quadril;
- a rotina: horas sentada, viagens, treinos, a forma como você dorme.
A partir dessa avaliação, o Fábio pode combinar diferentes técnicas, porque o trabalho na clínica é sempre integrado, nunca uma técnica isolada. A quiropraxia adaptada e o New Seitai podem ajudar a devolver movimento à lombar e à pelve. O New Seitai é uma técnica de origem japonesa, conhecida como quiropraxia japonesa: faz uma leitura do corpo inteiro (postura, apoio e as cadeias de compensação que ligam regiões distantes) e usa ajustes suaves e precisos, conduzidos com um pequeno instrumento de madeira, sem torções bruscas e sem depender do "estalo". A acupuntura pode entrar no manejo da dor; em dor crônica, incluindo a artrose, uma meta-análise com 20.827 pacientes (Vickers, 2018) mostrou a acupuntura superior à simulada e à ausência de acupuntura.
Essas técnicas caminham junto com o fortalecimento, que é o centro do tratamento da tendinopatia glútea: aliviar a dor e soltar o que está travado ajuda o exercício a acontecer com mais conforto. Muitas pacientes relatam que dormir melhor é a primeira mudança que percebem.
Fábio Pense Duarte é pioneiro do New Seitai em Minas Gerais, com 22 anos de prática, formação no Brasil e na China (imersões em 2010 e 2019), mais de 12 mil profissionais formados em seus cursos e registro CNAA-MG 2234. Ele não é médico: o trabalho é funcional e caminha junto com o seu ortopedista, reumatologista ou ginecologista. A clínica fica em Lourdes, Belo Horizonte, com horários a partir das 6h.
O custo de empurrar com a barriga
Dor lateral do quadril costuma persistir quando nada muda. E dormir mal por meses cobra caro: cansaço, irritação, menos disposição para treinar — e a dor fica mais sensível justamente porque o sono é ruim.
Há também um efeito silencioso. Quem sente dor ao subir escada ou caminhar em subida passa a evitar esses movimentos. No estudo de Segal, quem tinha dor dos dois lados levava mais tempo para caminhar 20 metros e para levantar da cadeira. Em alguns anos, a viagem com caminhadas longas ou o passeio com os netos vão ficando para depois.
Como esse quadro é mais comum em mulheres na meia-idade, muitas pacientes chegam também com outras queixas da transição menopausal — tema do texto sobre dor nas articulações na menopausa.
Quando procurar um médico
Procure avaliação médica rapidamente se:
- a dor começou após uma queda, principalmente se você tem osteoporose ou mais de 65 anos;
- você não consegue apoiar o peso na perna;
- há febre, vermelhidão ou calor na região do quadril;
- a dor é constante, inclusive em repouso, e piora à noite independentemente da posição;
- existe histórico de câncer, perda de peso sem explicação ou uso prolongado de corticoide;
- há formigamento, fraqueza ou dor em choque descendo pela perna, o que sugere origem na coluna;
- há perda de controle da urina ou das fezes, ou dormência na região genital — nesse caso, procure um pronto-socorro imediatamente.
Também vale passar pelo médico se a dor persiste por mais de algumas semanas, para confirmar o diagnóstico e descartar artrose avançada ou outras causas.
Em resumo
- A dor na lateral do quadril que piora ao deitar de lado costuma vir dos tendões glúteos; a bursite aparece em só cerca de 20% dos casos no ultrassom.
- É bem mais comum em mulheres: cerca de três vezes mais do que em homens, em adultos de 50 a 79 anos.
- Travesseiro firme entre os joelhos, evitar cruzar as pernas e não ficar "pendurada" em um quadril reduzem a compressão.
- No estudo LEAP (BMJ, 2018), educação mais exercício superou a infiltração em oito semanas e na melhora global em um ano.
- Artrose do quadril tende a doer na virilha e limitar a rotação — o médico confirma.
- Dor após queda, febre ou incapacidade de apoiar a perna pedem avaliação médica rápida.
Se o quadril está roubando o seu sono, agende uma avaliação na Clínica Fábio Pense. A avaliação olha o quadril e tudo o que pode estar sobrecarregando essa região.
Referências
- Segal NA, Felson DT, Torner JC, et al. Greater trochanteric pain syndrome: epidemiology and associated factors. Archives of Physical Medicine and Rehabilitation, 2007;88(8):988-992. Link
- Long SS, Surrey DE, Nazarian LN. Sonography of greater trochanteric pain syndrome and the rarity of primary bursitis. American Journal of Roentgenology, 2013;201(5):1083-1086. Link
- Grimaldi A, Mellor R, Hodges P, et al. Gluteal Tendinopathy: A Review of Mechanisms, Assessment and Management. Sports Medicine, 2015;45(8):1107-1119. Link
- Mellor R, Bennell K, Grimaldi A, et al. Education plus exercise versus corticosteroid injection use versus a wait and see approach on global outcome and pain from gluteal tendinopathy: prospective, single blinded, randomised clinical trial. BMJ, 2018;361:k1662. Link
- National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Osteoarthritis in over 16s: diagnosis and management (NG226). NICE, 2022. Link
- Vickers AJ, Vertosick EA, Lewith G, et al. Acupuncture for chronic pain: update of an individual patient data meta-analysis. The Journal of Pain, 2018;19(5):455-474. Link
Conteúdo informativo, revisado em outubro de 2026. Não substitui consulta médica.