Dor crônica é a dor que persiste ou volta por mais de três meses, segundo a Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP). Ela costuma não passar porque, com o tempo, o sistema nervoso pode ficar mais sensível e amplificar a dor, mesmo quando o tecido já cicatrizou. O que fazer: investigar a causa com o médico e seguir um plano combinado, com movimento gradual, sono, manejo do estresse e, em alguns casos, acupuntura e terapia manual.
Talvez você conheça bem a cena. Você acorda e, antes mesmo de abrir os olhos, já sabe que ela está lá. A lombar, o pescoço, o ombro. Já fez exame, já tomou anti-inflamatório, já ouviu "está tudo normal". E a dor continua ali, como um ruído de fundo que nunca desliga.
Este texto não promete solução rápida. Ele explica o que muda no corpo quando a dor se torna crônica, o que as diretrizes recomendam e o que costuma não ajudar.
O que é dor crônica, afinal?
A definição é simples: dor que persiste ou se repete por mais de três meses. É o critério da IASP, desenvolvido em cooperação com a Organização Mundial da Saúde para a CID-11, a classificação internacional de doenças.
E não é rara. A IASP estima que cerca de 20% das pessoas no mundo convivem com dor crônica. No Brasil, uma revisão sistemática de 35 estudos, publicada em 2021 no BrJP, a revista da Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED), encontrou uma prevalência média em torno de 45%, com as mulheres mais afetadas. Os estudos usam métodos e populações diferentes, por isso o número é uma estimativa, mas o recado é claro.
Se você convive com dor há meses, está longe de ser exceção.
Quais são os tipos de dor crônica?
A classificação da IASP para a CID-11 separa dois grandes grupos:
- Dor crônica primária: a dor é o problema principal e não é bem explicada por outra doença, ou é desproporcional ao que os exames mostram. Exemplos: fibromialgia e muitos casos de dor lombar inespecífica.
- Dor crônica secundária: a dor é consequência de outra condição, como artrose, artrite reumatoide, lesão de nervo, câncer ou dor que persiste depois de uma cirurgia ou de um trauma.
A distinção importa porque o tratamento muda. Na dor secundária, tratar a doença de base é parte central do plano. Quem faz esse diagnóstico é o médico.
Por que a dor não passa se o exame está normal?
É uma das perguntas mais comuns no consultório da Clínica Fábio Pense. E a resposta está no sistema nervoso, não só no músculo ou na articulação.
Pense na dor como um alarme. Na dor aguda, como uma torção de tornozelo, o alarme dispara porque há lesão. A lesão cicatriza, o alarme desliga.
Na dor crônica, algo diferente pode acontecer. Os neurônios das vias da dor podem ficar mais excitáveis, e estímulos que antes eram neutros, como ficar sentado uma hora ou dormir de lado, passam a ser sentidos como dor. Os pesquisadores chamam isso de sensibilização central. Revisões descrevem esse fenômeno em quadros como fibromialgia, artrose, dor de cabeça e disfunção da ATM, e trazem um ponto importante: do ponto de vista biológico, é um processo potencialmente reversível.
Alguns fatores que costumam manter esse ciclo:
- Sono ruim: estudos mostram que noites mal dormidas preveem piora da dor, mais do que a dor prevê piora do sono.
- Evitar movimento por medo: parar de se mexer descondiciona o corpo e reforça o alarme.
- Músculos em proteção constante: o corpo "trava" a região dolorida, o que gera rigidez.
- Estresse e atenção constante na dor: tendem a aumentar a percepção dela.
Nada disso significa que a dor é "coisa da sua cabeça". A dor é real. O que muda é que o tecido deixa de ser a única peça do quebra-cabeça, e por isso tratar só o local costuma dar alívio curto.
Se a sua dor parece "mudar de lugar" ou voltar sempre do mesmo jeito, vale ler também o nosso texto sobre por que a dor sempre volta, que fala das compensações do corpo.
O que você perde quando a dor vira rotina
É fácil se acostumar. A pessoa deixa de jogar tênis "por enquanto". Desiste da viagem longa porque o voo é desconfortável. Para de pegar o neto no colo. Passa a escolher restaurante pela cadeira.
Cada adaptação parece pequena. Somadas ao longo de cinco ou dez anos, elas significam menos força, menos equilíbrio, menos disposição e um mundo que vai encolhendo.
A boa notícia é que um sistema nervoso que ficou sensível também pode, em muitos casos, voltar a se acalmar. É nisso que se apoia a abordagem moderna.
Dor crônica: o que fazer, segundo as diretrizes?
A diretriz NG193 do NICE, órgão que orienta o sistema de saúde do Reino Unido, publicada em 2021, trata da dor crônica primária. As principais recomendações são:
- Oferecer programa de exercício em grupo supervisionado e incentivar a pessoa a se manter ativa.
- Considerar terapia cognitivo-comportamental ou terapia de aceitação e compromisso, feitas por profissionais treinados.
- Considerar um curso de acupuntura, dentro de limites de tempo e de custo definidos pela diretriz.
- Considerar alguns antidepressivos, prescritos pelo médico, por poderem ajudar na dor, no sono e na qualidade de vida mesmo sem depressão.
A mesma diretriz orienta não iniciar, para dor crônica primária, paracetamol, anti-inflamatórios, opioides, benzodiazepínicos, anticonvulsivantes como gabapentina e pregabalina, antipsicóticos e injeções de corticoide em pontos-gatilho, por falta de evidência de benefício. Quem já usa algum deles deve revisar com o médico, numa decisão compartilhada. Nunca suspenda um remédio por conta própria.
Na prática, a abordagem multimodal combina várias frentes:
| Frente | O que faz | Exemplo prático |
|---|---|---|
| Movimento gradual | Mostra ao corpo que mover é seguro | Caminhadas curtas que aumentam aos poucos |
| Sono | Ajuda a recuperar a tolerância à dor | Horário regular, quarto escuro, menos tela à noite |
| Abordagem psicológica | Reduz o sofrimento e o medo ligados à dor | Terapia cognitivo-comportamental ou de aceitação e compromisso |
| Acupuntura | Pode reduzir a intensidade da dor | Curso de sessões com reavaliação |
| Terapias manuais e complementares | Podem aliviar tensão e melhorar a mobilidade | Quiropraxia, New Seitai, ventosaterapia, conforme a avaliação |
| Acompanhamento médico | Investiga causas e decide sobre medicação | Clínico, ortopedista, reumatologista ou médico da dor |
E a acupuntura, tem evidência mesmo?
Ela é uma das terapias complementares mais estudadas na dor crônica. Uma meta-análise publicada no Journal of Pain em 2018, liderada por Andrew Vickers, reuniu dados individuais de 20.827 pacientes em 39 ensaios clínicos de dor musculoesquelética, artrose, cefaleia crônica e dor no ombro.
O resultado: a acupuntura foi superior tanto à acupuntura simulada quanto à ausência de acupuntura, nos quatro tipos de dor estudados. E o benefício foi duradouro: cerca de 85% do efeito do tratamento se mantinha um ano depois. Somada à diretriz NG193 do NICE, que permite considerar um curso de acupuntura na dor crônica primária, é uma base sólida para incluí-la num plano de cuidado.
Na Clínica Fábio Pense, a acupuntura chinesa e japonesa entra dentro de um tratamento combinado: o Fábio não trabalha com uma técnica isolada e, dependendo do caso e da avaliação individual, pode integrá-la à quiropraxia, ao New Seitai e a outras técnicas, reavaliando a resposta ao longo das sessões.
O que costuma não ajudar (e alguns mitos)
- "Dor é sinal de que estou piorando a lesão." Na dor crônica, nem sempre. Dor e dano deixam de andar juntos, por isso o movimento orientado é parte do tratamento.
- Repouso prolongado. Ficar parado por semanas tende a aumentar rigidez e sensibilidade.
- Procurar o exame "que finalmente vai mostrar". Repetir exames sem mudança nos sintomas nem sempre traz resposta. Quem decide se um novo exame é necessário é o médico.
- Aumentar ou trocar remédio por conta própria. Pode trazer efeitos colaterais sem benefício.
- Depender só de aparelhos passivos. A diretriz do NICE não recomenda TENS, ultrassom ou corrente interferencial para dor crônica primária, por falta de evidência de benefício.
Passo a passo: por onde começar
- Converse com o seu médico para descartar causas que pedem tratamento específico.
- Registre a dor por duas semanas: horário, intensidade de 0 a 10, o que piora e o que alivia.
- Escolha um movimento possível hoje, mesmo pequeno, e repita todos os dias.
- Cuide do sono como parte do tratamento, não como detalhe.
- Faça uma avaliação funcional para entender padrões de movimento e compensação que o exame de imagem não mostra.
- Monte um plano com reavaliações: o que funciona continua, o que não funciona sai.
A avaliação funcional é justamente a etapa que muita gente pula. Ela observa como você se move, onde o corpo compensa e o que pode estar mantendo o ciclo ativo.
Como é o cuidado na Clínica Fábio Pense
Fábio Pense Duarte é pioneiro do New Seitai em Minas Gerais e atua há 22 anos com terapias manuais e medicina tradicional chinesa. Tem formação no Brasil, duas imersões na China (2010 e 2019) e formação WFAS-China, já formou mais de 12 mil profissionais e tem registro CNAA-MG 2234.
A primeira consulta é uma avaliação funcional detalhada, com tratamento na mesma sessão quando faz sentido. A partir dela, e de acordo com o que cada caso pede, o Fábio define quais técnicas combinar e com que frequência. O atendimento é particular, sem pacotes obrigatórios, e o plano é revisto conforme a resposta de cada pessoa.
Um ponto importante: Fábio Pense Duarte não é médico. O trabalho da clínica é complementar e acontece em conjunto com o médico que acompanha você. Muitos pacientes relatam que essa combinação trouxe o que faltava: alguém com tempo para ouvir a história inteira.
Se a dor é espalhada pelo corpo, com cansaço e exames normais, leia também sobre o que ajuda na fibromialgia.
Quando procurar um médico
A dor crônica merece acompanhamento médico regular. Mas alguns sinais pedem avaliação rápida, sem esperar a próxima consulta:
- Perda de peso sem explicação, febre ou suor noturno junto com a dor.
- Dor que piora à noite, em repouso, e não melhora com nenhuma posição.
- Fraqueza progressiva em braço ou perna, ou dormência que se espalha.
- Dor após queda ou trauma, especialmente em quem tem osteoporose.
- Histórico de câncer com dor nova ou diferente.
Vá ao pronto-socorro imediatamente se houver perda de controle da urina ou das fezes, dormência na região genital ou fraqueza súbita nas pernas. Em emergência, ligue para o SAMU (192).
Em resumo
- Dor crônica é a que dura ou volta por mais de três meses (IASP, CID-11).
- A IASP estima que afete cerca de 20% das pessoas no mundo; uma revisão brasileira encontrou média em torno de 45% nos estudos nacionais.
- Com o tempo, o sistema nervoso pode ficar mais sensível e amplificar a dor, mesmo com exames normais, num processo potencialmente reversível.
- Para a dor crônica primária, o NICE recomenda exercício supervisionado e permite considerar terapia psicológica, acupuntura e alguns antidepressivos, e orienta não iniciar analgésicos comuns, anti-inflamatórios e opioides.
- Em meta-análise com mais de 20 mil pacientes, a acupuntura foi superior à simulada e à ausência de acupuntura, com efeito que se manteve em boa parte após um ano.
- O caminho mais eficaz costuma ser combinado e acompanhado pelo médico.
Um próximo passo possível
Conviver com dor por meses cansa, e não só o corpo. Se você quer entender o que mantém a sua dor ativa e montar um plano realista, agende uma avaliação na Clínica Fábio Pense, na Rua Espírito Santo, 2727, em Lourdes, Belo Horizonte. Os horários começam às 6h, de segunda a sexta, para quem precisa encaixar o cuidado antes do trabalho.
Referências
- Treede RD, Rief W, Barke A, et al. Chronic pain as a symptom or a disease: the IASP Classification of Chronic Pain for the International Classification of Diseases (ICD-11). Pain, 2019. Link
- International Association for the Study of Pain (IASP). ICD-11 Pain Classification. Link
- Aguiar DP, Souza CPQ, Barbosa WJM, Santos-Júnior FFU, Oliveira AS. Prevalência de dor crônica no Brasil: revisão sistemática. BrJP, 2021. Link
- National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Chronic pain (primary and secondary) in over 16s: assessment of all chronic pain and management of chronic primary pain (NG193). NICE, 2021. Link
- Woolf CJ. Central sensitization: implications for the diagnosis and treatment of pain. Pain, 2011. Link
- Finan PH, Goodin BR, Smith MT. The association of sleep and pain: an update and a path forward. The Journal of Pain, 2013. Link
- Vickers AJ, Vertosick EA, Lewith G, et al. Acupuncture for Chronic Pain: Update of an Individual Patient Data Meta-Analysis. The Journal of Pain, 2018. Link
Conteúdo informativo, revisado em outubro de 2026. Não substitui consulta médica.
